Do Éter,

em precipitação - Eu preciso senti-la percorrendo pelo meu corpo. Olhar para o céu nublado, ver os pingos em minha direção. Eles me atravessando. A alma. O frio me cobrindo. O barulho me entorpecendo.



Abro os braços. Tento receber mais gotas em meu corpo. É infinito. Posso sentir que não acaba. Vem outro trovão e certifico que ela continuará. O frio aumenta. O vento corta meu rosto como lâmina gelada. Gosto da sensação. Então corro. Sem rumo. Tento sentir o frio mais forte. A chuva me segue, mas contra mim. Eu encharcado, me dispo. O frio aumenta. Sinto-me desprotegido. Não, transparente. Como que pela primeira vez eu pudesse ser eu mesmo. Deito. Só vejo tons em cinza. Nada no pensamento. Só liberdade. Então esqueço. Acredito que esqueço, porque não lembro nada. Vazio. Feliz. Vazio nunca me deixou tão completo! Sorrio. Chuva escorre pelos meus olhos. Não sei o que é chuva, o que é lágrima. Tudo é análogo. Uma cor só. Fecho os olhos. Sinto meu corpo voar. E vôo! Olhos ainda cerrados. Sinto mais chuva, mais frio. E cada vez mais alto. Mais liberto. Posso sentir meu corpo desprendendo de mim. Ele já não me serve. Tenho a chuva. A tempestade. O raio. A luz, cinza. Continuo voando sem direção. Chuviscos continuam cantando pelo meu corpo já (talvez!) sem matéria. Etéreo. Abro os olhos e não enxergo o chão. Cercado de nuvens. Chove forte. Tempesto-me. Raios me atravessam em todas as direções. O trovão ecoa dentro de mim. Sinto a alma arrepiar. Algo parece que vai acontecer. Frio se mistura ao medo. Meu corpo etéreo enrijece. Paulatinamente torno-me cinza. Cinza! Já não sei onde estou, do que sou. Tudo virou cinza e parte de mim. Então começo a me chocar em outros tons. Perturbação. Desnorteio. Trovão. Ensurdeço.  A matéria que me tornei fluidifica-se. Começo a cair. A chuva agora me acompanha. Dessa vez tudo é mais rápido. Mais frio. Mais devastador. Continuo caindo. Forte. Gelado. Aquoso. Sinto-me quebrando em milhares de partículas. Me perco. Me encontro. Transbordando no rosto de um outro alguém...  

Comentários

Marcos Mariano disse…
Eu nunca vou esquecer de quando me mostraste isso. É lindo e reflexivo!

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